Seria bom ser clara de alma clara, tal qual a pele de minha mãe
E negra, negra cor definida do infinito e do sangue negro do meu pai
Ser clara e direta o que é para poucos
Eu ainda sou de muitos
Somos tantos e tantos
Há tanta coisa em comum entre nós, amigos
Vocês também, não aguentam mais, a mesmice dos dias
Como se nunca estivesse bom e nada fosse suficiente
Esse dormir e acordar de sempre é sempre assim
Gostando do muito, vivendo no pouco
Os que sentem, os que riem, os que pensam, os que choram
Os que querem o que eu quero, saberão: a vida é muito mais que isso
A vida se vive vivendo, tentando, descobrindo, permitindo-se
Um dia se vive, n’outro se morre
Naturalmente, fatalmente, nunca nada é para sempre
Naquele ano que eu amei uma só pessoa, fui outra pessoa
E quando o armagedom da incompatibilidade me esbofeteou eu entendi
Que amar é assim mesmo.
Rejuvenesce, surpreende e nos faz cair diante das ilusões
Eis aqui a estranha e horrorosamente linda lembrança de amor
Que tenho, que guardo, que me fez querer amar a mim mesma
Como sendo a única devoção que vale a pena
Se tudo fosse de novo como antes te perderia de novo
Porque todo ser humano perdido de amor
Não sabe que está a um passo de se achar
Se de novo tivesse e de novo perdesse teu amor
O amor que de tanto zelo virou poeira
E de tanta promessa virou descrente
Salvaria meus anos vindouros
Vivendo e me portando como uma mulher
Que eu não soube ser
Quem dera hoje, menos nostálgica.
Aninha Marques










