CONFUNDIR-SE É UM ERRO. CONFUNDIR É PRECEITO DE TALENTO INCOMPREENDIDO.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Embora

Você me diz pra olhar pra lua-prateada-enorme e o céu estrelado, fala que tudo é tão lindo e que sente uma felicidade enorme por tá aqui. Eu não entendo nada do que você fala. Não, não. A lua tá bonita, daria uma boa foto. Mas, eu tô falando dessa felicidade e todo esse sentimento por esse momento e a beleza da lua e das estrelas. Eu não quero que você vá embora, ou fique mal, só tô falando o que tô pensando. Eu penso muito. Eu penso demais, passo horas pensando e tenho teorias sobre tudo, principalmente sentimentos, penso muito neles, mas eu não sinto. A última vez que senti alguma coisa, eu tava debaixo de um sol escaldante esperando um ônibus, arrasada, usada como uma prostituta que alguém faz sexo a noite toda e depois nem leva na parada de ônibus, pior, nem a leva até a porta, nem um beijo de despedida. Foi terrível, eu lembro que foi, não lembro da sensação, desde que o ônibus chegou eu não sinto mais nada. Oi?! Calor e frio? Ah, sim. Sensações térmicas, eu sinto, especialmente o frio. O frio sempre bate o meu queixo. O resto não tem diferença, toda boca é boca, todo álcool é álcool e todo cheiro é cheiro. Houve um tempo em que eu amava perfumes, vinho e... alguém. É, o do ponto de ônibus mesmo. Sol, o nome dele, o chamo assim. Eu era um girassol, agora eu fico aqui olhando a lua, vivendo numa noite eterna. Desacordada. E cadê o Sol que não nasce mais? Triste? Eu não sei. Mas, se você ta dizendo que é, eu acredito. Deve ser triste. Olha só você, olha a lua e eu. Eu deveria tá sentindo alguma coisa. Quando eu faço força pra sentir, só vem o medo. Assustador.
- Então, tu tem medo de mim?
- Às vezes.
- Quando?
- Quando tu me beija com gosto daquela pasta de dente de uva que eu usava quando era criança.
- Tandy.
- É.
- Mas, acho que nem existe mais.
- É, acho que não.
- O que mais?
- Quando tu me esquenta e o frio passa.
- Eu vou fotografar a lua e imprimir, tu coloca na parede do teu quarto pra lembrar do agora quando sentir alguma coisa, eu espero.
- Agora...
- O que?
- Eu tô com medo.
- Eu não vou te levar até o ônibus. Vou te levar em casa, sempre.
- Não, não vai.
- O que?
- Eu quero que tu vá embora.
- Por que?
- Não pergunta, só vai embora e pronto.
- Eu vou.
E ele foi.
Numa noite fria de lua-prateada-enorme, ele foi... embora. Embora. Palavra forte essa: embora, no sentido de ir, embora. E eu nem o levei à parada de ônibus. Tá fazendo muito frio, melhor ir pra casa. 


Isabella Cabral

6 Comentarios:

tainá manrique disse...

parabéns pelo blog mew *o* , seguindo.

Francielly Mélo disse...

Nossa!! Adorei o texto...
Parabéns!!

Macaco Pipi disse...

agora sim!
belissimo!

enricows disse...

Belíssimo²
A maneira que você escreve é incrível!
Me prendeu muito!
Com certeza vou seguir!
Abraço!
Sucesso!

Comente no meu Blog também:
http://enricows.blogspot.com/

joão victor borges disse...

sentimentos, penso muito neles, mas eu não sinto sentimentos, penso muito neles, mas eu não sinto sentimentos, penso muito neles, mas eu não sinto sentimentos, penso muito neles, mas eu não sinto... não consigo parar de pensar nisso!

Abraço! ;)

http://anpulheta.blogspot.com

L disse...

principalmente sentimentos, penso muito neles, mas eu não sinto.


Meu Deus.

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"Nunca houve no mundo duas opiniões iguais, nem dois fios de cabelo ou grãos. A qualidade mais universal é a diversidade." (Michel de Montaigne)
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